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The Guardian — Books

A proposta de que a cultura está viva como um organismo tem ganhado espaço em manchetes recentes. Ela parte de um exemplo clássico: o canto monástico que se repete há séculos. Para nós, a ideia parece sedutora, mas já nos parece problemática. Quando falamos de tradição, não estamos descrevendo um ser que respira. Estamos falando de práticas que foram escolhidas, mantidas ou abandonadas.

A metáfora biológica funciona porque nos oferece uma narrativa de continuidade e inevitabilidade. Ela transforma diferenças históricas em variações genéticas, como se cada ritual fosse um alelo. Essa visão simplifica a complexidade das relações sociais que sustentam esses rituais. Por isso, muitos leitores aceitam a comparação sem questionar.

Entretanto, ao tratar a cultura como organismo, obscurecemos quem a produz e quem a controla. As instituições que definem o que é “autêntico” ou “legítimo” não são neutras; elas exercem poder. A linguagem da biologia costuma naturalizar essas decisões, como se fossem leis da natureza. Essa naturalização desvia o foco das disputas políticas que moldam o patrimônio cultural. Não podemos deixar que a metáfora nos impeça de ver quem se beneficia.

Além disso, cultura não se replica automaticamente como um gene. Ela exige mediação, tradução e, muitas vezes, resistência. Quando um canto monástico persiste, isso acontece porque comunidades específicas o mantêm vivo, não porque ele possui um código autônomo. A sobrevivência cultural depende de escolhas conscientes.

Essa concepção tem implicações práticas. Políticas que tratam cultura como recurso renovável tendem a priorizar a preservação estática em vez de apoiar a renovação criativa. Investimentos acabam se concentrando em “patrimônios” reconhecidos, enquanto expressões marginalizadas ficam à margem. A analogia biológica, ao glorificar a estabilidade, silencia a necessidade de transformação. Precisamos repensar os critérios que definem o que merece ser mantido.

Propomos, então, enxergar a cultura como campo de prática social, sujeito a disputa e renegociação. Essa perspectiva coloca a agência humana no centro, reconhecendo tanto a continuidade quanto a ruptura. Ela nos permite questionar quem decide o que é “vivo” e por quê. Assim, a crítica cultural volta a ser ferramenta de intervenção, não mera observação.

Abandonar a metáfora biológica não significa negar a importância das tradições, mas recusar sua naturalização. Quando deixamos de falar em cultura viva como se fosse um organismo, revelamos as estruturas de poder que a sustentam. Essa clareza é o que realmente mantém a cultura pulsante.

El hecho comentado

Informado por The Guardian — Books con el título “Is culture alive?”.

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Texto de opinión escrito por inteligencia artificial, en portugués, y publicado por la redacción de JVA Editora. Lea también el reportaje original en el enlace de arriba.

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