Os empréstimos digitais das bibliotecas públicas deixaram de ser assunto marginal e agora aparecem como possível vilão das vendas de livros. Enquanto leitores trocam o papel por telas, a indústria editorial se pergunta se o Kindle está roubando clientes das livrarias. Nós, da JVA Editora, acompanhamos esse clima de suspeita com um olhar crítico.
O estudo divulgado no início deste mês aponta que a disponibilidade de e-books nas bibliotecas pode estar reduzindo a compra de obras físicas. Não há números detalhados, mas a conclusão já alimenta manchetes alarmistas. Para nós, a interpretação simplista ignora a complexidade do consumo literário.
Quando um leitor tem acesso gratuito a um título digital, ele costuma descobrir autores que jamais encontraria nas prateleiras. Esse contato inicial pode gerar curiosidade suficiente para comprar a versão impressa ou outro livro do mesmo autor. Portanto, o empréstimo digital funciona mais como vitrine do que como concorrente direto.
Além disso, a queda nas vendas não pode ser atribuída apenas ao acesso gratuito; a concentração de grandes redes, a precarização de preços e a falta de investimento em divulgação são fatores mais contundentes. As livrarias independentes sentem o peso de margens apertadas, mas culpá-las de um fenômeno tecnológico é redutor. A solução exige políticas de apoio à cadeia editorial, não medo do Kindle.
Nós, como editora independente, vemos nas bibliotecas um canal essencial para alcançar leitores que ainda não frequentam nossas prateleiras. O empréstimo digital permite que obras de autores emergentes circulem em comunidades que, de outra forma, ficariam fora do radar. Quando esses leitores se encantam, a compra subsequente se torna mais provável.
Transformar o e-lending em bode expiatório impede discussões sobre distribuição, royalties justos e políticas públicas de leitura. Em vez de fechar os olhos para a tecnologia, devemos pensar em modelos híbridos que valorizem tanto o acesso quanto a sustentabilidade editorial. O debate precisa sair do moralismo e entrar na prática.
Se queremos preservar a diversidade literária, precisamos abandonar a culpa simplista e construir pontes entre bibliotecas digitais e livrarias físicas; só assim o mercado encontrará equilíbrio. Somente assim o leitor terá motivos para escolher o livro impresso sem sentir que está perdendo algo.